Pesquisa nacional revela um novo retrato das viajantes maduras: elas viajam sozinhas, com amigos, filhos ou netos e mostram que não existe mais uma única maneira de conhecer o mundo depois dos 60.
Durante muito tempo, a imagem da viagem na maturidade parecia seguir um roteiro pronto.
Um casal aposentado. Uma excursão. Um pacote fechado. Tudo organizado do começo ao fim.
Esse viajante continua existindo.
Mas uma pesquisa realizada em 2026 mostra que, principalmente entre as mulheres, essa fotografia ficou pequena demais para representar o que está acontecendo.
Entre as mulheres 60+ pesquisadas, 17% viajam sozinhas, 23% com amigos e 31% com filhos ou netos. Entre os homens, há uma concentração muito maior nas viagens em casal: 75% viajam com seus cônjuges.
Não significa que as mulheres maduras deixaram de viajar com seus parceiros.
Também não significa que sejam necessariamente mais independentes que os homens.
O que os números revelam é algo mais interessante para quem acompanha as transformações do turismo:
as mulheres 60+ apresentam formas muito mais diversas de escolher suas companhias de viagem.
Em uma ocasião, pode ser o marido. Em outra, as amigas. Na próxima, filhos ou netos. E também existe aquela viagem em que ela simplesmente faz a mala e vai sozinha.
A companhia deixou de ser uma fórmula.
Uma pesquisa ajuda a revelar quem é essa nova viajante
Os dados fazem parte do estudo “Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60”, realizado pela consultoria Data8 em parceria com o Expo Fórum de Turismo 60+ e com apoio do Ministério do Turismo.
A pesquisa ouviu 1.012 brasileiros com 60 anos ou mais, das cinco regiões do país, entre março e abril de 2026.
E existe um cuidado importante para interpretar esses números. Estamos falando especificamente de pessoas com 60 anos ou mais. Portanto, os percentuais da pesquisa não devem ser automaticamente estendidos aos brasileiros entre 50 e 59 anos.
Ainda assim, para um projeto como o 5quentamais.TUR, o estudo oferece uma fotografia valiosa sobre como uma parcela importante do público maduro está viajando. E ela derruba alguns estereótipos.
Não é um público que viaja apenas de vez em quando
Antes de observar especificamente as mulheres, vale conhecer o tamanho do movimento.
Segundo a pesquisa, 52% dos entrevistados fazem pelo menos três viagens por ano. Outros 34% afirmaram gastar, no mínimo, R$ 10 mil anuais com turismo. Há também autonomia financeira: 96% pagam integralmente suas viagens ou dividem as despesas com o cônjuge.
Ou seja, estamos falando de pessoas que viajam, escolhem, compram e participam ativamente das decisões. É justamente quando olhamos para a forma como mulheres e homens viajam que surge uma diferença interessante.
Mulheres 60+: não existe uma única companhia de viagem
No conjunto dos entrevistados, 56% viajam com o cônjuge. Entre os homens, esse comportamento é ainda mais forte: 75% viajam com seus parceiros. Entre as mulheres, porém, a divulgação da pesquisa destaca uma variedade maior:
17% viajam sozinhas; 23% viajam com amigos e 31% viajam com filhos ou netos.
É importante não somar automaticamente esses percentuais e concluir que representam determinado total das mulheres entrevistadas, porque a divulgação disponível não esclarece suficientemente se todas essas categorias devem ser tratadas como mutuamente exclusivas.
Mas, individualmente, elas já contam uma história importante.
A mulher madura aparece em diferentes configurações de viagem.
E talvez seja justamente isso que o mercado turístico ainda esteja começando a compreender.
Viajar sozinha já faz parte dessa realidade
O dado de que 17% das mulheres maduras pesquisadas viajam sozinhas merece atenção. Não porque viajar sem companhia deva ser apresentado como algum tipo de prova de coragem ou independência.
Mas porque existe uma diferença importante entre querer companhia e depender de companhia para viajar.
Uma mulher pode gostar de viajar com o marido e, em outra oportunidade, viajar sozinha.
Pode fazer férias com a família e, meses depois, decidir conhecer um destino que ninguém mais quer visitar.
Viajar sozinha significa assumir escolhas que normalmente seriam divididas:
onde ficar; quando sair; o que visitar; onde comer; quanto gastar; quando descansar; e até quando mudar completamente os planos.
Para algumas pessoas isso pode parecer trabalhoso.
Para outras, é justamente a melhor parte. E esse movimento não aparece apenas entre as mulheres 60+
Outro levantamento ajuda a enxergar o fenômeno feminino de maneira mais ampla.
O Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, lançado em 2026 pelo Ministério do Turismo, foi construído a partir de uma pesquisa com 2.712 mulheres de todas as regiões brasileiras, realizada entre agosto e setembro de 2025.
Nesse levantamento, 41,8% disseram já ter viajado sozinhas e 31,4% afirmaram realizar esse tipo de viagem com frequência. Aqui é fundamental não misturar as duas pesquisas.
Esse segundo estudo não é exclusivo de mulheres 60+. Ele reúne diferentes faixas etárias e inclui, entre os perfis considerados, mulheres maduras. Portanto, não podemos utilizar seus percentuais como se descrevessem especificamente as mulheres acima dos 60. Mas o levantamento ajuda a mostrar que a viagem solo feminina faz parte de um movimento mais amplo no turismo brasileiro.
As amigas também entraram no roteiro
Outro número chama bastante atenção: 23% das mulheres maduras pesquisadas viajam com amigos. Cléa Klouri, cofundadora da Data8, observa que têm surgido grupos de pessoas principalmente mulheres que se organizam para viajar. Essa configuração merece ser observada.
Não é viagem em casal. Não é necessariamente excursão tradicional. Também não é viagem solo. São amigas que encontram na companhia umas das outras uma oportunidade de conhecer lugares que talvez seus parceiros ou familiares não queiram ou não possam visitar.
Uma encontra um destino. Outra gosta da ideia. A terceira começa a pesquisar. Surge o grupo.
Começam as conversas sobre datas. E algum tempo depois todas estão no aeroporto.
Mas existe um detalhe importante: amizade não garante automaticamente compatibilidade durante uma viagem. Boa amiga não significa necessariamente boa companheira de viagem
Parece estranho, mas faz sentido. Uma pessoa acorda cedo. Outra gosta de dormir. Uma prefere restaurantes melhores e aceita gastar mais. Outra economiza em tudo. Uma quer entrar em todos os museus. Outra quer caminhar e descobrir a cidade. Uma planeja cada hora. Outra detesta horários.
Por isso, antes de uma viagem entre amigas, talvez seja mais importante conversar sobre o jeito de viajar do que sobre o destino. Orçamento. Ritmo. Quarto. Horários. Passeios. Momentos em que cada uma pode querer fazer algo separadamente. Essas conversas parecem pequenas antes da viagem.
Durante vários dias convivendo juntas, podem fazer uma diferença enorme.
Filhos e netos também fazem parte dessa nova fotografia
Outro recorte divulgado mostra que 31% das mulheres viajam com filhos ou netos. Entre as três configurações femininas destacadas na divulgação da pesquisa, essa apresenta o maior percentual.
E existe uma mudança de perspectiva interessante aqui. A mulher madura não precisa aparecer como alguém que simplesmente acompanha a viagem planejada pelos mais jovens.
Ela pode ser justamente quem propõe o destino. Quem pesquisa. Quem convida. Quem paga parte ou toda a viagem. Quem decide levar os netos.
A autonomia financeira identificada na própria pesquisa ajuda a desmontar aquela imagem da pessoa mais velha como participante passiva das férias da família.
Em muitas casas, ela pode ser justamente a pessoa que colocou a viagem de pé.
Viajar com diferentes gerações exige outro tipo de roteiro
Por outro lado, viajar com filhos adultos ou netos cria um desafio. Os ritmos podem ser completamente diferentes. A criança quer uma atividade. O jovem quer outra. A avó quer conhecer determinado lugar. Alguém quer acordar cedo. Outro quer aproveitar a noite. A solução não precisa ser obrigar todo mundo a fazer tudo junto.
Uma viagem familiar pode funcionar melhor quando existem momentos compartilhados e momentos independentes.
Um almoço juntos. Um passeio que todos querem fazer. Depois, algumas horas livres.
No fim do dia, todos se encontram novamente. Viajar em família não significa transformar várias pessoas diferentes em um único turista.
O próprio ritmo virou uma questão central
Talvez um dos dados mais interessantes da pesquisa esteja justamente aqui. Para 59% dos entrevistados, uma boa viagem é aquela que oferece liberdade para fazer escolhas no próprio ritmo. Segurança e previsibilidade aparecem com 50%, enquanto conforto físico e emocional foi citado por 48%.
Observe que estamos falando de ritmo, não necessariamente de lentidão. Isso é importante. Uma mulher com 65 anos pode querer caminhar dez quilômetros durante um dia de viagem. Outra pode preferir passar a tarde em um café. Uma pode gostar de acordar às seis.
Outra, às dez. A maturidade não cria um ritmo universal.
Talvez faça justamente o contrário: depois de tantos anos, fica mais fácil perceber qual é o seu. E escolher a companhia certa ou nenhuma companhia também passa por isso.
Cultura, aprendizado e descoberta aparecem com força
Outro dado divulgado a partir da pesquisa reforça esse perfil. Entre as mulheres maduras, 89% demonstraram interesse por descobertas, aprendizado e experiências culturais. Entre os homens, a busca por silêncio e tranquilidade aparece com maior peso: 25%, contra 15% entre as mulheres.
Isso não significa, evidentemente, que toda mulher queira visitar museus ou que homens estejam interessados apenas em sossego. Pesquisas identificam tendências dentro de grupos. Não definem indivíduos. Mas os dados ajudam hotéis, destinos, operadoras e produtores de conteúdo a perceber que “turista 60+” não é uma personalidade.
Existem interesses muito diferentes dentro da mesma faixa etária.
A liberdade de datas também muda a maneira de viajar
Existe outra vantagem importante encontrada entre os viajantes maduros: a possibilidade de viajar fora dos períodos tradicionais. Isso pode significar escapar de feriados, férias escolares e momentos de maior movimento.
Para quem possui essa flexibilidade, abre-se um leque interessante: escolher épocas menos movimentadas; encontrar destinos mais tranquilos; ficar mais dias; viajar durante a semana;e organizar a viagem de acordo com a própria disponibilidade.
Para uma mulher que viaja sozinha ou com amigas, essa liberdade pode ser especialmente útil porque reduz a necessidade de encaixar toda viagem nos mesmos períodos disputados por grande parte dos turistas.
Mas viajar sozinha não significa passar a viagem inteira sozinha
Esse é outro estereótipo. Uma pessoa pode embarcar sozinha e, no destino, participar de:
visitas guiadas; passeios de barco; excursões de um dia; experiências gastronômicas; atividades culturais; grupos de caminhada; aulas; cruzeiros.
Ela decide quando quer companhia. Depois volta para o hotel e recupera sua liberdade.
A viagem solo não precisa significar isolamento. Significa principalmente que a realização da viagem não depende da disponibilidade permanente de outra pessoa.
Autonomia não elimina a preocupação com segurança
Esse ponto é essencial.
A pesquisa utilizada para elaborar o Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas mostra que segurança ainda interfere nas decisões femininas.
O próprio guia reúne orientações sobre planejamento, transporte, hospedagem e canais de apoio. Em divulgação recente, o Ministério das Mulheres informou que, entre as 2.712 participantes do levantamento, 72,6% apontaram lazer como uma das razões para viajar sozinhas e 65,1% citaram independência e liberdade.
Quer saber mais? O Ministério do Turismo disponibiliza gratuitamente o Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, com orientações sobre planejamento, transporte, hospedagem, segurança e canais de apoio.
Liberdade, portanto, não significa ignorar riscos. Antes de uma viagem solo, vale pesquisar o movimento e as características da região da hospedagem, consultar avaliações recentes, conhecer as opções de transporte e manter alguém de confiança informado sobre o roteiro.
E aqui existe um princípio importante: a responsabilidade pela segurança não pode ser colocada exclusivamente sobre a viajante.
Hotéis, transportes, estabelecimentos e destinos também fazem parte dessa experiência.
O mercado talvez ainda esteja olhando para uma mulher que já mudou
Imagine uma campanha tradicional de turismo voltada ao público maduro.
Provavelmente aparecerá um casal sorridente diante de uma paisagem bonita. Essa cena continua verdadeira. Mas ela já não conta a história inteira. Agora coloque ao lado dela: três amigas entrando no aeroporto;
uma mulher chegando sozinha a uma cidade; uma mãe viajando com a filha adulta; uma avó levando os netos; um casal fazendo uma viagem; um grupo feminino conhecendo outro país.
Todas essas imagens podem representar a mulher 60+ atual.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores mudanças. O mercado não precisa substituir um estereótipo por outro. Não é necessário trocar “casal maduro” por “mulher madura viajando sozinha”.
É preciso reconhecer que existem muito mais maneiras de viajar.
Como levar esses dados para a sua próxima viagem
Os números são interessantes. Mas eles também podem provocar algumas perguntas práticas.
Se for viajar com amigas: conversem antecipadamente sobre orçamento, ritmo e expectativas. Não existe obrigação de fazer tudo juntas.
Se for viajar com filhos ou netos: considere diferenças de idade e interesses. Algumas atividades compartilhadas e outras independentes podem deixar o roteiro mais leve.
Se for viajar sozinha: pesquise bem a localização da hospedagem, transporte e características do destino. Consulte informações recentes e mantenha contato com alguém de confiança.
Se for viajar em casal: não parta do princípio de que ambos querem exatamente a mesma programação. Uma tarde separada também pode fazer parte de uma ótima viagem.
Em qualquer formato, existe uma pergunta que vale fazer antes da passagem:
“Essa viagem está sendo montada do jeito que eu realmente gosto de viajar?”
A companhia deixou de ser uma condição
Talvez essa seja a melhor maneira de interpretar o que está acontecendo. A pesquisa não diz que as mulheres maduras não querem mais companhia. Muito menos que viajar sozinha seja superior a viajar acompanhada. Ela mostra uma viajante que aparece em diferentes configurações.
E isso muda bastante a conversa. A pergunta tradicional: “Com quem você vai?” pode ter várias respostas. Com meu marido. Com minhas amigas. Com meus filhos. Com meus netos. Sozinha.
E todas podem vir da mesma mulher, em diferentes momentos da vida.
Talvez a verdadeira transformação esteja justamente aí:
companhia continua sendo uma escolha mas deixou de precisar ser uma condição para que a viagem aconteça.
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